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Talibans, formigas e trigo

Julho 12, 2008

Afghanistan: Lost in translation, um video de John D McHugh, repórter do jornal The Guardian, mostra as vicissitudes do exército das forças de coligação nos seus “encontros culturais” com os locais no Afeganistão.

Através de um habitante de uma aldeia, um ancião Pashtun, os soldados tentam obter informações, utilizando um tradutor, sobre a pretensa actividade dos taliban nas proximidades da aldeia. O ancião senta-se e calmamente tenta explicar aos soldados, através de uma história e de uma metáfora sobre trigo e formigas, porque razão a comunidade não os pode ajudar. O intérprete, por incapacidade ou indisponibilidade, traduz algo completamente diferente, o que gera uma situação ambígua e deixa os soldados irritados pela “falta de cooperação” do ancião.

Para além do facto, óbvio, de os militares utilizarem um péssimo tradutor, o desencontro parece ser mais cultural do que linguístico e o problema mais de interpretação do que de tradução. Este episódio quase que justificaria a necessidade – fundamento das “Human Terrain Systems” no exército americano – da presença de um cientista social que interpretasse o significado da história que o ancião Pashtun utiliza como resposta. No entanto, a pergunta que se impõe é antes “o que é que os militares querem ouvir?” e não o que o ancião pretende comunicar. Este exemplo sugere o que poderá o exército pretender e esperar de cientistas sociais incorporados em terrenos militares: que traduzam (obtenham informações, rápida e eficazmente) e não que interpretem. Sabendo que o “terreno”, mais do que um mapa geográfico, é uma construção teórica, percebe-se que nem os respectivos “terrenos” podem ser os mesmos. Lost in translation and lost in the place…

[CM]

3 comentários

  1. O filme é extraordinário!!! Pena não o teres descoberto em tempo de aulas: é que para além de todas as questões do relativismo cultural – ou concomitantemente com ele – há a questão da comunicabilidade. A montante de tudo isso há a improbabilidade deste tipo de encontros e a questão que devemos colocar é se esta incomunicabilidade é, efectivamente, cultural …As diferenças entre estes homens, o que querem, o que dizem, são meramente culturais? É que eu consegui – obviamente com a ajuda da tradução linguística – entender melhor o velho afegão!
    MCS


  2. São atitudes destas que colocam em xeque quaisquer boas intenções das HTS; o que interessa, como dizes, é de facto “o que é que os militares querem ouvir?”. Estou espantada com a falta de inteligência nesta guerra. Para os militares, a opção de não colaborar é sempre sinónimo de um medo irracional, nunca vêem nela uma estratégia de sobrevivência baseada na experiência, e é por isso que não querem interpretar – porque é que o haveriam de fazer se não têm nada a aprender?… Obrigada Cristina, bom filme.


  3. Olá! Gostei muito da sua web, a abordagem do tema é super descontraída e tem um conteúdo legal, são poucas as páginas de direitos humanos aqui na wordpress. Eu fiz uma sobre o tema recentemente, dê uma olhada, podemos fazer uma “parceria”. Um abraço!



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