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“algemas invisíveis”

Fevereiro 23, 2009

[Trago-vos uma situação que me foi contada por uma fonte próxima e segura, há poucos dias.]

Amal, empresa do sector metalomecânico, Setúbal.
Trinta jovens vietnamitas são contratados por três anos como soldadores, para ganharem 3euros à hora, quando um soldador típico ganha 10 (ainda que não totalmente declarados). Como é que isto acontece? Ora, estes rapazes estão legais no país e a sua condição é tida como regular. O truque: a empresa justifica a diferença salarial através dos supostos custos de transporte – vinda e regresso –, alimentação e alojamento – o último, consta, sem grandes condições. Convenhamos, porque traria a empresa homens da República Socialista do Vietname se as suas despesas suplementares os colocassem a par dos trabalhadores portugueses?
Nos próximos três anos, os vietnamitas, como são chamados pelos colegas, vão permitir à empresa compensar as oscilações do mercado, constituindo um grupo de mão-de-obra barata sempre disponível, independentemente do volume de trabalho/encomendas – que neste sector tende a variar quase sazonalmente…
Quem me contou isto falava em “algemas invisíveis”. Algemas invisíveis para os vietnamitas – que dificilmente juntam dinheiro para ver a família antes do fim do contrato, e que, alheios a tudo isto, estão até felicíssimos por o terem conseguido; algemas invisíveis para os trabalhadores nacionais, desprotegidos pelo sistema – os brilhantes contratos de 1mês e a possibilidade de se ser dispensado a qualquer momento, ou reivindicação.
Alguns dos trabalhadores portugueses foram dispensados por três dias, depois da chegada dos vietnamitas, tendo sido novamente chamados para um preço/hora mais baixo. Os que não aceitaram estão agora desempregados.
Ao que parece, tudo isto é legal e, acrescentaria, repetível.

LGS

4 comentários

  1. Se, antes da crise, estes casos eram já praticados sob o aval das legislações existentes, neste momento multiplicam-se sem qualquer controlo por parte das instituições que dizem tomar medidas de protecção ao emprego. A crise, real, tem servido também para que as empresas possam “justificadamente” descartar trabalhadores, sem que existam medidas efectivas de controlo destes abusos.


  2. A propósito (ou mais ou menos): “Why anthropologists should become journalists”, 11/03/09 em antropologi.info: http://www.antropologi.info/blog/anthropology/anthropology.php?p=3383&more=1&c=1&tb=1&pb=1 .


  3. Minha cara as algemas são bem visíveis, mas o que adianta, se elas são ignoradas. Caminhamos a passos largos para um sistema de precariedade e de desespero, ainda mais global do que até agora vimos.
    É urgente legislar para fazer face ao abandono do homem, cinicamente incrível a postura de quem nos governa, cada vez mais nos levam a abdicar de nos enquanto seres vivos, encurralando-nos nas nossas próprias rotinas, escravizando-nos nos nossos direitos.
    Bem analisado.


    • Ze Camões, peço imensa desculpa pelo tempo que o teu comentário levou a ser publicado… De facto, temos de prestar muito mais atenção ao blog, que anda um bocadiho desleixado. Mas volta sempre!



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