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Dia 3.11.2009

Novembro 2, 2009

Direitos Humanos da Mulher e a retórica da «Salvação das Mulheres». 

ABU-LUGHOD, L. 2002. “Do Muslim Women Really Need Saving?” American Anthropologist. 104 (3).

One comment

  1. Bom, desta vez não consegui ir assistir à aula, e aqui estou eu ás voltas com o meu pobre inglês para ler o texto sobre “a salvação das mulheres afegãs”. Antes de avançar, deixem que vos conte um pequeno episódio com que me deparei há uns 5 anos. Em pleno metro de Londres (um bom laboratório social, por sinal), 3 mulheres entraram para a carruagem em que eu seguia: uma avó, uma filha e uma neta. A indumentária identificava-as claramente como mulheres islâmicas. Concentrei-me nelas, observando 2 mundos em conflito: a mais velha era a que indiciava mais claramente a cultura islâmica. Nas roupas, no véu, na postura corporal. A mãe, menos carregada. Por fim a adolescente, possivelmente já nascida na Inglaterra. Pareceu-me, naqueles largos minutos de viagem de metro, que a jovem vivia num dilema que me atrevo a classificar como clássico nestes quadros: uma enorme tensão entre o mundo que ela certamente vive dentro de casa, e o mundo fora dela, da escola, das colegas de turma. Dois mundos antagónicos numa trégua incómoda. Crio na minha mente um quadro: a avó possivelmente conheceu uma cultura diferente – a britânica – já tardiamente. O seu mundo será outro, o choque enorme e o abismo impossível de vencer. Nem sequer creio que o queira vencer. O seu mundo está organizado de acordo com os seus valores, que não são necessariamente melhores ou piores do que os valores da cultura britânica. A mãe, ligada a um casamento, obrigada aos laços familiares tradicionais. Mas a jovem, como se relacionará com esses dois mundos? Como entender as colegas da mesma idade, que possivelmente discutirão as idas à discoteca ou o sexo com os namorados? Na paragem seguinte entra uma outra jovem, possivelmente britânica, minissaia, algumas transparências, maquilhagem, ar de rebelde. A idade deve andar próxima da outra jovem, que a olha num misto de curiosidade e receio pela censura evidente no rosto da avó. Quais serão os valores defendidos pela 1ª jovem? Seguramente ela já possui informação para fazer as suas escolhas. Mas está dependente dos laços familiares, qual será a sua liberdade de escolha? Voltando ao nosso texto, dentro dos padrões do relativismo cultural que temos vindo a debater parece pertinente a questão de saber se as mulheres afegãs devem ser libertadas. Isso implica um juízo de valores, em que o mundo ocidental se considera moralmente superior, e por isso mesmo, enquanto combate o terrorismo, e a talhe de foice, vai libertar essas mulheres. Aqui os antropólogos devem mais uma vez dar o seu contributo: antes de uma tal acção de libertação devemos explicar aos poderosos que decidem da paz e da guerra que os valores de uma cultura podem ser diversos: que a poligamia pode ser culturalmente aceite e bem-vista. Que um véu ou uma burka tanto podem ser elementos de repressão como de protecção das mulheres que os usam, símbolos da sua construção identitária enquanto mulheres. Só pode ser salvo quem quer ser salvo. Não entender a diversidade cultural é condenar logo à partida ao fracasso uma estratégia, e mais do que isso, aumentar o sofrimento de pessoas que as nossas piedosas intenções apenas querem libertar. Para melhor equacionar esta questão vale a pena relembrar o tal conceito de exotização de nós mesmos, sejam esses “nós mesmos” Europeus ou Norte-Americanos. Porque é quando se consegue fazer uma auto-análise, quando conseguimos “sair de nós próprios” , rirmo-nos de nós mesmos, que conseguimos o distanciamento necessário para uma análise mais clara e mais lúcida da realidade cultural humana. A receita? Aceitar o facto do relativismo cultural, mas estabelecer padrões de universalismo para alguns valores. E perguntar a essas mulheres se elas querem ser libertadas, dando-lhes em simultâneo as ferramentas para que a resposta possa ser verdadeira. Como pode uma mulher que está dependente do marido, do pai ou de um irmão pedir essa tal “liberdade”? Como pode ela – querendo-o – libertar-se, se a sociedade em que vive não lhe proporciona assistência social? Essas mulheres eram frequentemente espancadas nas ruas por serem viúvas, mas ao mesmo tempo estarem proibidas pelo regime taliban de circularem sem a companhia de um homem. Como salienta o autor, temos a obrigação de nos vermos a todos como pertencendo a um único mundo. E não podemos ver as outras culturas como alienígenas, mundos de pobreza e miséria, longe do nosso mundo. Mais difícil talvez será resistir à lógica da guerra, que tudo quer resolver pela força das bombas “inteligentes”. Talvez seja preferível usar “cabeças inteligentes” digo eu… Agora vou voltar à leitura do texto, apesar da lentidão. Quero ver se apanho mais ideias do autor.

    Boa noite



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