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A armadilha de Said

Novembro 4, 2018

A exterioridade da representação é sempre regida pelo seguinte truísmo: se o Oriente se pudesse representar a si próprio, fá-lo-ia; como não pode, a representação serve o Ocidente, e, faute de mieux, o pobre Oriente.  ( Said,1978) 

 

Por vezes, há obras que assinam autores e não o contrário. Orientalismo – O Oriente como invenção do Ocidente é uma dessas obras, culpada da proeminência controversa, mas sem dúvida brilhante de Edward W. Said. O título é autoexplicativo: o orientalismo é um fetiche pela outrificação. A obra dedica-se a desmascarar a materialização da categoria Oriente, deixando-a a nu, na tarefa de resignificar o orientalismo como prática discursiva que serve os interesses de quem a constrói, o Ocidente. 

Contudo, o orientalismo não se cinge a um vício da academia com utilidades menos ingénuas, e se o Oriente é uma representação, vamos encontrá-lo nos discursos e imagens que povoam o nosso imaginário quotidiano. Se recordarmos o nosso primeiro contacto com o “Oriente”, decerto caímos na armadilha do Said. Obviamente que esse tropeção não acontece por mero acaso. Existe intenção política nessas representação. A intenção de cristalizar o Outro como é imaginado. 

A título de curiosidade, deixo alguns excertos de manuais escolares do secundário ( do secundário, quando já se espera algum grau de complexificação dos assuntos e pluralização das discussões! ) do ano de 2014 , que ilustram bem essa tal intenção.

Sem Título

Num capítulo intitulado “permanência de focos de tensão em regiões periféricas” (  um dos raros espaços dedicados ao “rest” de “the west and the rest” ) é nos apresentado apenas UM parágrafo sobre o Médio Oriente, sem qualquer contextualização acerca por exemplo, da emergência do Estado Islâmico. Nem a síntese mais milagrosa conseguiria restringir-se ao minúsculo espaço a ela reservada, mas a falta de informação é complementada por imagens que enviesam o pensamento. Por exemplo… a imagem de que o terrorismo é monoteísta e que o seu Deus, é o de Maomé ( pelo menos segundo a cronologia de atendados terroristas, que exclui no entanto, os atentados que ocorrem “intraperiferia”, e claro o terrorismo estatal, que se pinta como legítimo). Ou que o diacronismo mental pré e pós 11 de setembro se repercute por todas as cabeças do mundo da mesma maneira.

Sem f

nAinda sobre o jogo de imagens, a forma como nos é apresentado o conflito israelo-palestiniano é claramente política: de ambos os lados há pessoas pacíficas e também pessoas violentas. Este discurso cria uma categoria una de “maus”, os violentos, ignorando que a violência tem várias naturezas. Desse modo, ao fazer equivaler a violência estrutural à reacção violenta dos  oprimidos, silencia a causa palestiniana, que visualmente é representada por uma mulher bombista. Já do lado israelita, é um grafiti racista que incorpora a “violência radical”. Que pena os editores não se terem lembrado do imenso rol de imagens dos militares abusando, humilhando e violentando palestinianos indefesos ( incluindo crianças)

Esta é a construção do Oriente contemporâneo oferecida a estudantes que pouco sabem sobre a primavera árabe, o ISIS, a guerra na Síria- assuntos na ordem do dia quanto liam estas páginas. Mas a armadilha de Said já vem de trás, sob a ideia dúbia de Reconquista, que nos é vendida como um pilar da identidade nacional.

A palavra Reconquista prolifera ( e é assim, com maiúscula e tudo), apesar de ( numa legenda algo marginal que só o aluno curioso irá resgatar) ser já posta em causa , porque a paisagem ( material e social) que os cristãos das Astúrias encontraram no seu movimento de “reclamação”,  já era significativamente diferente para justificar a eliminação do prefixo –re.  Não obstante, para explicar a “Reconquista cristã” era necessário explicar ao aluno quem eram os “ invasores”. O Islão é descrito como uma religião monoteísta que “acentua a submissão incondicional do crente à vontade de Deus” ( descrição de todas as religiões monoteístas, e de nenhuma). Menciona-se também a jihad, com passagens do Alcorão. A jihad é descrita no manual como “guerra santa” ( tradução muito simplista do verdadeiro sentido do termo, que não é exclusivo à guerra), ao passo que algumas páginas adiante, são nos apresentadas as cruzadas, como outra guerra santa, ilustrada desta vez por um relato que se intitula “ a tomada de Jerusalém”. Há aqui uma subtileza maliciosa, uma silenciosa segregação artificial de mundos. Existem passagens da Bíblia ( umas até bem violentas) que poderíamos recuperar para ilustrar a guerra santa, como:

Proclamai isto entre as nações: Apregoai guerra santa e suscitai os valentes; cheguem-se, subam todos os homens de guerra. (Joel 3:9)

No entanto, foi escolhido um relato sobre o que alguns cristãos fizeram, num tempo distante. Ao particularizarmos a guerra santa cristã, usando ao mesmo tempo passagens do livro sagrado do Islão para tornar viva a ideia de que a jihad violenta é basilar na identidade do muçulmano, embarcamos no processo de desumanizar o outro.

 

Desumanizar o outro é o princípio de qualquer projecto imperialista. Mas a pessoa comum (também cúmplice), desumaniza o outro por medo. Ou por ignorância. A obra de Said é um manifesto contra ambos.

 

One comment

  1. Boa refelxão Bea…tvz um pouco longa para post, o que não facilita a discussão, mas mesmo assim, desafio os colegas a iniciarem…



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