h1

Sobre a [Esteticização] da Violência

Novembro 17, 2018

Retomando ao texto “Jihad and Death”:

Ao atribuir a fetichização da violência a um único lado da moeda corremos o risco de simplificar o discurso que liga automaticamente o Islão ao Terrorismo. Não defendendo nenhum dos lados de combate numa conjuntura de guerra, os extremismos devem ser atribuídos às pessoas (indivíduos) e não a grupos religiosos, étnicos, ideológicos. Procurar perfilar “extremistas” associando-os apenas a um dos lados de combate corre o risco de eclipsar que certos perfis se enquadrem entre indivíduos que os combatem, automatizando ligações banais entre actos e grupos.

Não procuro neste post desculpar ou apontar dedos a qualquer um dos lados (assumindo aqui uma dicotomia “west and the rest” ou mais claramente West and the Daesh). Não existem heróis de Guerra pois a violência não deve ser Heroíficada – um combatente condercorado, médico em terreno, acusado de crimes de guerra (o que é um crime de guerra afinal?!) pode ser ele um fetichista da violência e da morte de outrem.

(…) “he shot indiscriminately at civilians, killed a teenage Islamic State fighter with a handmade custom blade, and then performed his re-enlistment ceremony posing with the teenager’s bloody corpse in front of an American flag.”

 

Z.

6 comentários

  1. O texto em causa é sobre o Jihadismo e a morte (não sobre outro tipo de extremismos em que o fascínio pela violência assume outras formas ou é politizado). Dizer que ocorre noutros contextos não ajuda à crítica, e como ressalvas, replica o dualismo habitual. Ao contrário do que dizes, parece-me justamente que o autor quer mostrar o mesmo que indicas: 2º o mesmo, trata-se de um fascìnio infelizmente global, mas que é cooptado por alguns extremismos políticos islâmicos – não se trata de algo inerente ao islão. Daí que utilize a expressão «l’islamization du terrorism»…(Islamization of terrorism)». Quanto ao resto, e embora devamos contestar qualquer tipo de violência, a abolição da distinção entre guerra e terrorismo (embora frequentemente ténue) parece-me delicada, e exigir, por isso, uma discussão mais sofisticada… que está para além do texto em causa…
    Par finalizar: penso que o autor não fala de ‘esteticização’ da violência, e colocar isso no título pode induzir uma leitura superficial do que vê mais como «atração pela morte» que considera uma especificidade dos novos terrorismos.


    • Cara Professora.

      Peguei aqui no termo esteticização, como referido pelo autor no capitulo “The Hero and Aesthetics of Violence” (p.48), fazendo uma comparação ao acto cometido pelo soldado Americano.
      A esteticização da violência neste caso, remete para um imaginário bruto e cru de desprezo pela vida, assim como uma sensação de vingança de A contra B (e vice-versa)
      “The narrative plays on the image of movie and videogame superheroes. A typical cliché is that of the future hero whose
      destiny is not at first clear, as he leads an empty or too-normal
      life.”(p.49)

      Entendi claramente o conteúdo do texto. De se referir ao perfil destas pessoas que fascinam pela morte – de outros ou a sua. Dizer que acontece noutros contextos, serve mais a uma própria noção de que esta estética de violência percorre fronteiras, e ideologias. Não procurei aqui justificar os actos pela sua globalidade. Entender que uma conjuntura mundial responde muitas vezes a estes perfis ajuda-nos a entender estes actos – Não sendo estes inerentes ao Islão, mas talvez inerentes a uma Juventude Global com acesso a um computador/cinema/consola.

       ”The engagement in violent action thus has to do with making
      the connection between a personal revolt, rooted in a feeling of
      humiliation due to one’s attachment to a virtual “community” of
      believers, and a metanarrative of retuning to the golden age of
      Islam, a narrative theatricalized according to the codes of a contemporary
      aesthetics of violence that turns the youth into a hero and master of terror.”

      Mais uma vez, como referi na aula, basta ver os brutais videos de “propaganda” do Daesh para se percebes qual é esta esteticização que muito se assemelha a algum filme Hollywoodesco – um filme do género da sequela “Saw”, por exemplo em que a tortura alheia resume a principal premissa: não basta os videos HD 4k de decapitar outros, como também se constroem mecanismos completos de afundar uma jaula de prisioneiros numa piscina – com cameras apontadas por todos os ângulos para que se veja bem o sofrimento. É esta a esteticização que tanto o autor, como eu me referia.
      Neste caso, o acto do Soldado é também ele fruto desta ideia.

      Penso que a Islamização do terrorismo (ou extremismo) como referido pelo autor refere isso mesmo: Dá-se propósitos ao terrorismo, sobre as mais variadas formas. Islamização do Terrorismo, quase soa a uma noção de “Justificação” do Terrorismo. Justificação nos seus mais variados termos claro – não que eu concorde!

      Não querendo soar conservador ao ponto de culpar o cinema e os videojogos para uma normalização da violência, posso no entanto “culpar” a internet pelo infinito acesso que ela dispõe. Se eu facilmente acesso a qualquer video de torturas e homicídios sendo que a única coisa que me poderia impedir seria “ter menos de 18 anos”, qualquer um pode aceder. De qualquer lado do mundo com qualquer etnia crença ideologia ou fins.
      Claro está que este grupo maioritariamente não islâmico que se tem como radical é ele produtor macabro destes conteúdos. E há pelo outro lado, espectadores macabros, que irão normalizar a sua visão sobre a morte a partir deles.
       ”The sudden rise in volunteers for jihad after 2012 is probably
      also linked to this aestheticization of violence (greeted by flurries
      of “likes” on Facebook), as al-Qaeda did not exploit gore and the
      Sadean register the way ISIS does. It is important to look at the
      photos and videos.” (p.51)

      Z


      • Ok Zé..assim não deixas dúvidas que poderiam ser inferidas numa leitura menos atenta (como pode ter sido a minha, mas que não fosse de mais ninguém) do teu post…;-)


  2. Quase que imagino a cena descrita num filme de guerra hollywoodesco, o paradigma estético da violência. E se ainda é muito cedo para se produzir outros “12 indomáveis”- versão Daesh, pelo menos este filme espelha a narrativa que questionas, mas o busílis penso, não está tanto no “também há extremistas do outro lado” mas na própria conceptualização da violência. Este excerto do Paulo Pinto ilustra bem o ponto:

    ” O discurso da jihad global tem uma relação espetacular com as narrativas também míticas da” Guerra contra o Terror” e “Defesa da Democracia”, veiculadas pelo governo norte-americano e seus aliados. Ambos os discursos encarnam as contradições de uma violência milenarista que visa criar uma nova era de redenção, baseada em um projecto político. Bin Laden e Zawahiri pregavam a restauração da moral e da justiça divina, enquanto prédios, aviões, trens e ônibus eram explodidos pelos seus adeptos em Nova York, Londres e Madrid. Da mesma forma, George W. Bush e Tony Blair prometiam o florescer da democracia, paz e prosperidade no Oriente Médio, enquanto casas, escolas, abrigos e hospitais eram destruídos por bombardeiros americanos em Bagdá, Faluja, Beirute, Jenin e Gaza.” (Pinto, 2014:188)

    Se são os próprios autores que definem a legitimidade das suas acções por oposição a um outro que conceptualizam como terroristas, então há duas interrogações que o livro”Jihad and Death” deixa, e que talvez fosse interessante discutirmos.

    Primeiro, como descortinar o relativismo perigoso da perspetiva dos autores, sem cair no discurso da total recusa da radicalidade, que é um discurso tão ideológico como o discurso radical, e que o autor a meu ver deslegitima, ao usar termos como “troublemakers” para definir uma esquerda não eleitoral, ignorar o cunho popular que movimentos radicais possam ter, e ainda dar como exemplo de boa integração, a presença de um grande número de muçulmanos nas forças policiais francesas (:34) ( ao que eu pergunto, a violência já pode ser glorificada se for institucionalizada?)

    E segundo, apesar do imaginário conduzir à ação, como ficar apenas pela construção do imaginário para compreender o político? A violência como meio é partilhada pelos mais variados projectos políticos ( pelo Bush, pelo Bin Laden, pelo anarquista do século XIX)- nas suas dimensões normativas e pragmáticas. A despolitização, ou melhor, a ausência de um projecto do Daesh, e a ideia de violência como fim que consta na narrativa oficial, dificulta a compreensão dos interesses materiais atrás deste niilismo mobilizador. Quais são eles?


    • Bea, claro que o texto emite juízos de valor e entendo o teu apelo heurístico à planura que nem sempre cumpre; mas o texto é sobre uma forma particular de ‘mobilização’ para uma forma particular de terrorismo. Concordo tb com o risco de despolitização que este tipo de enquadramento acarreta…mas não me parece que o autor fale de «ausência de um projecto do Daesh, e a ideia de violência como fim que consta na narrativa oficial» ; insiste sobretudo no modo como essa leitura é atractiva para os jovens jihadistas suicidas. Em todo o caso, os projetos políticos subjacentes, são, de facto, aqui obscurecidos.


      • Nao cumpre uma perspetiva heurística mas nem sempre tem que cumprir, a minha última questão não era tanto uma crítica, era quase um elogio, pois ao percebermos o que configura o imaginário destes novos jihadistas, mais portas se abrem para questões e interpretações não superficiais, por isso, mesmo não sendo holista, o texto contribui para o holismo 🙂 O termo violência como fim é cunhado pelo próprio autor. Quando falei de ausência de projecto não era com a intenção de despolitizar o Daesh, mas no sentido de traçar o retrato do totalitarismo da acção face ao pensar da utopia na mente dos agentes.
        É um texto mesmo muito interessante, sem dúvida



Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: