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Novembro 20, 2018

Capturar

Esta planura bucólica faz dar asas à inspiração poética? Os seus verdes campos incitam o maior dos devaneios filosóficos? Ou tão somente basta vislumbrá-la para nos sentirmos reconfortados, aconchegados, amortecidos em algo que tem a essência de um lar tranquilo, calmo e sereno? Bom, é no Iraque.

Se recorrentemente associamos imagens destas a tudo menos ao árido deserto iraquiano é porque houve algum agente de manipulação que nos moldou. Se, por acaso, no momento em que viram esta imagem exclamaram “Eis o Vale de Kani Shaie!” estão de parabéns e não necessitam ler mais. Caso se insiram no restante grupo (como me palpita que, eventualmente, seja mais provável) convido-vos a reflectirem comigo sobre as nossas percepções e consequentes interpretações desta região tão apelidada de “inóspita”. Todavia e não querendo ser censurado, hoje quero propor a inserção de um novo elemento, marginalizado nas aulas sem motivo aparente, ainda mais quando se falam em “Contextos”.

Uma das grandes críticas a Said continua a ser a excessiva essencialização do retracto do Ocidente através de uma suposta sinédoque. E, parecendo já que estou a voltar monotonamente a um tópico mais que batido, dirijo-me, passando a redundância (mas de propósito), sinedoquicamente  a esses críticos que continuam a colocar o Médio Oriente sobre dois altares (não necessariamente da mesma importância) que são a versão assustadora e bélica, e a versão romanesca e exótica.

Meus caros huntingtonianos (trumpistas?), gostaria de vos elucidar sob uma perspectiva que muito poucos vos devem ter revelado e certamente revelarão – por falta de interesses obviamente – de como o Outro existe da mesma forma como nós existimos. Queria vos apresentar aqueles que lidam diariamente com a antropologia social (talvez de uma forma mais verídica do que certos indivíduos que se denominam antropólogos quando fazem pseudo- trabalhos de campo), com as relações internacionais ao seu nível mais básico, com a diplomacia, mas também com a geografia, topografia, sistemas de informação, cartografia, geologia e até engenharia. Mas que criaturas são estas que poderiam vos auxiliar naquilo que é o vosso eterno trabalho de casa? São aqueles vagabundos rastejantes, que acarretam o rídiculo nas bocas de certas multidões, que são alvos e vítimas do desprezo social e de perspectivas do futuro, mas também aqueles que contribuem para o crescimento do conhecimento para todos incluindo os que  desvalorizam esse esforço. Só podia estar a falar dos arqueólogos, como é evidente. Surpreendidos?

Pretendo exemplificar, de seguida e em poucas palavras como a Arqueologia – o novo elemento que então há pouco falava –  pode adicionar ferramentas de paz e até mesmo instaurá-la, cessando o silêncio que vemos agora naquela região próximo-oriental outrora rica de bens e expoente máximo de ideias. Para isso levo-vos ao caso de uma campanha arqueológica de há 3 anos, em Kani Shaie perto de Sulaymanyiah no território reclamado pelo Curdistão. Neste local cinco portugueses, um belga, uma italiana e dois curdos, todos arqueólogos (se é que neste contexto os podemos definir com este termo tão polivalente) tentam salvar um pouco da História arriscando-se às mais recônditas peripécias envolvendo-se na fronteira constantemente irregular do “Estado Islâmico”.

Neste grupo de aventureiros (é legítimo chamá-los de aventureiros enquanto multidões vivem essas “aventuras” todos os dias?) discutem-se temáticas imensamente variadas que saem da pura especialização.  Desde a questão a priori bastante polémica da presença dos dois géneros na mesma equipa à audiçaõ de relatos de mulheres que  reclamam vingança digna dum “pronto a morrer” (peshmerga), o domínio da liberdade de expressão e da extroversão não faltam. Assim o seu quotidiano envereda por múltiplos âmbitos de discussão que só mesmo poderia culminar nos cadáveres de poucos anos encontrados durante as sondagens arqueológicas.

Espero agora ter contribuído um pouco, com este caso, para o próprio questionamento dos críticos de Said, porque (incrivelmente para esses olhos) Suleymaniyah é uma cidade “suficientemente aberta para um velho livreiro se declarar ateu e vender Nietzche, Zizek, Dante, Kafka, na sua barraquinha no centro da cidade.” Enfim, convido-vos (agora huntingtonianos e os outros) à leitura deste relato que ilustra bem (também não digo “maravilhosamente”), a vida de um arqueólogo como agente a favor da Humanidade.

https://www.publico.pt/2015/05/31/culturaipsilon/noticia/arqueologos-nas-barbas-do-estado-islamico-1697260

Dois pequenos apartes para os leitores mais minuciosos: a constante referência a “cacos de cerâmica” e a “camadas”, segundo a New Archaeology constituem termos completamente desactualizados (sendo que a utilização dos primeiros é mesmo vista como ofensiva por ceramólogos como os meus próprios professores) sendo que deveriam ser referenciados como “fragmentos cerâmicos” e “unidades estratigráficas” respectivamente. Estas atribuições foram feitas pelo autor, muito provavelmente, sem qualquer pesquisa prévia.

(Mauro)